Colunistas

Publicado: Segunda-feira, 24 de novembro de 2008

A Pequena Hóspede

Quando um acidente fatal vitimou Leopoldo e a filhinha mais nova, Simone, Alice, a esposa, e Ruth a filha mais velha sofreram muito. Parecia que toda a felicidade do mundo se fora com eles e que elas nunca mais teriam motivos para alegrarem-se.
 
Quando chegou o Natal, porém, Ruth disse a mãe que achava que deviam festejá-lo como sempre fizeram.
 
A mãe escandalizou-se:
 
Nunca! Nunca mais participarei de uma festa depois do que nos aconteceu.
 
Mas a festa é de Jesus, é uma celebração, acho que devíamos fazer alguma coisa para comemorar.
 
Seu pai era tão animado, gostava tanto de festa e a Simone, então, com que euforia abria os presentes! Sem eles nada terá sentido.
 
Eu acho que se o Papai estiver nos vendo não vai ficar contente de vê-la tão desanimada.
 
Mas Ruth não conseguiu convencer a mãe. Resolveu dar um tempo. Tinha certeza de que no fim ia ganhar essa parada.
 
Conversando com amigas, Ruth soube que algumas famílias da cidade costumavam levar crianças de um orfanato para passar o Natal com elas. Teve uma idéia. Levaria, ela também uma menina para alegrar a grande noite. Seria um Natal diferente de todos que tivera até então e, tinha certeza de que seria muito bom.
 
Quando falou com a mãe esta, a princípio rejeitou a idéia, mas com a insistência de Ruth, acabou cedendo.
  
Entretanto, quando Ruth dirigiu-se ao orfanato já às vésperas do Natal foi informada de que todas as crianças já tinham sido convidadas. Só ficara a Débora, mas esta, coitadinha, não tinha condições de sair de lá.

- Por quê?

- Porque ela é retardada, dá muito trabalho, é muito dependente, você não poderia cuidar dela.

- Mas ela vai ficar sozinha aqui enquanto todas as outras vão às festas?

- Ela não toma conhecimento de nada. É completamente alheia ao que se passa a sua volta.

- Eu poderia vê-la?

- Lá está ela.

Ruth avistou uma meninazinha, no pátio, sentada na calçada, muito quieta, cabelos caindo sobre o rosto, com o olhar perdido no espaço enquanto as outras crianças brincavam.

- Ela é sempre assim. Completamente apática. Não demonstra sentir nada.

- Posso levá-la para passar o Natal comigo?

- Você vai arrepender-se. Ela não é o tipo de criança que anima uma festa.
Ruth insistiu e acabou conseguindo o que queria

- Pode vir buscá-la na véspera e ficar até o dia seguinte. Caso não dê certo, pode trazê-la de volta antes.

- Vai dar certo!
  
Ruth estava apreensiva. O que será que a mãe iria dizer? Já tinha sido difícil convencê-la a aceitar a idéia de trazer uma criança do orfanato, quando soubesse, então, que além de tudo era uma criança especial, com certeza iria chiar.
  
Mas Ruth estava determinada a derrubar qualquer barreira que a mãe ousasse levantar.
  
Débora, a menina triste, ia ser sua convidada para a noite de Natal, sim!
  
Comprou uma bonita árvore, enfeites para a casa toda e vários presentes para a Débora. Coisas singelas, mas que pareciam agradar a uma menina, lápis de cor e cadernos para pintar, maquiagem de brinquedo e uma grande boneca.
  
A mãe aceitou a Débora com mais facilidade do que Ruth esperava e, diante do entusiasmo da filha acabou se contagiando e começou a planejar o que teriam para a ceia.
  
No dia vinte e quatro, logo cedo Ruth foi buscar a sua hóspede.
  
Foi logo dizendo a ela que ia armar a árvore e colocar os enfeites e que ela ia ajudar.
  
Débora, em silêncio, olhava a sua volta, meio assustada.
  
Ruth não sabia até que ponto ela estava entendendo o que se passava, mas quando lhe pediu para ajudar a colocar os enfeites na árvore, ela estendeu a mãozinha pegou uma bola e tentou pendurar na árvore.
  
- Ela entendeu! Ruth regozijou-se.
  
Ela precisava de ajuda para pendurar os enfeites, deixou caírem alguns deles, mas "ajudou" a Ruth o dia todo nos preparativos para a festa.
  
À noite, vestida com o bonito vestidinho que Ruth comprara para ela, sapatinhos novos, presilhinhas nos cabelos parecia outra criança.
  
Só o olhar continuava sem vida parecendo não entender bem o que via.
  
Quando a mãe de Ruth a viu, toda arrumadinha, exclamou:

- Como ela ficou bonita! Faz-me lembrar...

- De mim, quando era criança, não é Mamãe? Atalhou a Ruth.
 
A mãe sorriu, um sorriso meio triste, mas era um sorriso:

- Certamente, Ruth. Era isso que eu ia dizer...
  
Quando Ruth entrou na sala, vestida de Papai Noel, arrastando um saco de presentes, Alice não pode deixar de rir com gosto.
  
Deus lhe tirara a filhinha caçula, mas deixara a mais velha que era um
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Maith

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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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