Colunistas

Publicado: Segunda-feira, 7 de setembro de 2009

A morte do Anacleto

Em um lugarejo perdido no sertão o dia começava cedo.
 
Nem bem havia amanhecido Tonho já tinha ido pra roça e Geralda com a trouxa de roupa usada debaixo do braço se encaminhava para o córrego, quando avistou ao longe o marido que retornava acompanhado pelo Seu Manuel da venda que caminhava ao seu lado, a pé, puxando o cavalo que, naturalmente, montara desde a cidade.
 
Geralda leva um susto tremendo.
 
Seu Manoel da venda possuía o único telefone da vila e generosamente cedia o aparelho para quem dele precisasse, mas, já avisou que só dava recado se fosse caso de morte.
 
Claro! Se ele se dispusesse a sair dando recadinhos para todo o mundo num raio de dez quilômetros, não faria mais nada na vida.
 
E agora, lá vinha ele, conversando com o Tonho. Alguém devia ter morrido. Quem? O Pai? A Mãe? Algum dos irmãos? Qual? Eram todos jovens, mas jovem também morre, ainda mais na cidade grande onde acontecem tantos acidentes e há tanta violência.
 
Há anos sua família mudara para o Sul. Os pais, os irmãos mais velhos, as irmãs mais novas, os garotos e a caçulinha, ainda bebê.
 
Ela já estava casada com o Tonho e teve que ficar.
 
A irmã mais velha também era casada, morava longe e ela não a via há muito tempo.
 
A família se deu muito bem numa cidade grande, no interior de São Paulo. O pai e os filhos mais velhos arranjaram emprego logo. Os rapazes estudaram, progrediram e agora estavam muito bem. As irmãs também trabalhavam e estudavam.
 
Um dos meninos, então com dezessete anos, era jogador de futebol.

Riu lembrando-se do irmão. A mãe se preocupava tanto porque ele não queria trabalhar nem estudar, só queria jogar bola e agora estava ganhando mais do que todos fazendo o que gostava.
 
A mãe contava em suas cartas como todos estavam progredindo. Um dos irmãos estava fazendo o serviço militar em um quartel e a irmã entrara em uma faculdade pública em São Paulo. Ia ser doutora!
 
Dalva, a menorzinha, aprendia balé e participava de festivais. Mandava as fotografias. Lindas!
 
Contava, ainda, que já tinham comprado uma casa muito boa, financiada, que todos ajudavam a pagar e estavam mobiliando aos poucos. Já tinham comprado a geladeira e a televisão.
 
Geralda ao mesmo tempo em que ficava contente com o progresso da família, não podia deixar de sentir-se deprimida, comparando com a sua vida tão pobre, no sertão (não tinha nem energia elétrica, muito menos geladeira e televisão) e a pensar que, se não tivesse casado tão cedo, sua vida poderia ser muito diferente.
 
O Tonho não era ruim, mas era acomodado. Não queria nem ouvir falar de enfrentar um pau de arara e ir arriscar a sorte na cidade.

Seu argumento:
- Aqui a gente é pobre, mas é feliz. Não falta comida boa e todos têm saúde. Na cidade não se sabe como é que ia ser.

Estava sempre prometendo a Geralda uma viagem para visitar a família, mas nunca dava certo. Sempre que conseguia guardar um dinheirinho, surgia uma necessidade maior e a viagem ficava para depois.
 
E, agora, alguém tinha morrido! Quem seria? Que angústia! Ao mesmo tempo em que queria que os dois corressem para chegar logo, desejava que eles não chegassem nunca.
 
Mas, chegaram e deram a triste notícia. O pai acabara de falecer no hospital. Não sabiam os pormenores, quiseram avisar logo para dar tempo deles irem.
 
Geralda ficou paralisada, sem saber o que fazer e o Tonho diz:

- Vá arrumando tudo pra viagem que eu vou arranjar o dinheiro.

- Arranjar onde? De que jeito?

- Vou vender uns animais. O Gerôncio está querendo comprar. Deixe isso comigo.
 
Geralda arruma as malas e apronta as crianças, movendo-se automaticamente como se estivesse sonhando, ou melhor, tendo um pesadelo.
 
- Tonho chega mais depressa do que ela esperava. Já tinha ido à cidade e providenciado tudo. Ônibus até Salvador. Avião até S.Paulo.
 
Fazem a viagem. Para Geralda tudo parecia irreal. Não conseguia assimilar a verdade cruel, que o pai estava morto e era por isso que estava viajando de avião, feito gente rica.
 
Não apreciava a viagem nem sentia o natural receio de quem voa pela primeira vez. Parecia que ela é que estava morta.
 
Talma é chamada pelo diretor da Faculdade durante uma aula.

Chega até a diretoria e ouve a tremenda noticia:

- Seu pai faleceu. Acabaram de telefonar avisando.

A garota fica olhando abobada para o diretor e sente que tudo vai escurecendo a sua volta.

Minutos depois está sentada com um copo de água adocicada na mão, rodeada pelos colegas.

Maurício oferece:

- Eu a levo até sua casa no meu carro. Eram duas horas de viagem, mas Maurício, seu secreto admirador, não perdeu a oportunidade da aproximação.
 
Roque, o jogador, entra no vestiário no intervalo de um jogo e recebe a notícia como um jato de água gelada. Já estava dispensado do segundo tempo e podia viajar imediatamente, se quisesse.

Sem pensar duas vezes, pega a moto e sai na máxima velocidade pela estrada afora.
 
No quartel, Elói é chamado à sala do Comandante.

Chega apreensivo. Normalmente só tinha contato com o Sargento e um chamado do Coronel devia ser algo importante.

E era. Importante e terrível. O pai acabava de falecer.

O coronel fala-lhe com uma atenção especial que nunca tivera antes, diz que “sente muito” e libera a viatura para levá-lo até sua casa na cidade próxima.
 
Geralda e a família foram os últimos a chegar.

Em São Paulo, ainda tiveram que tomar um ônibus até a cidade onde seus pais moravam e na rodoviária, um táxi.

Tudo muito chique e absolutamente fora de seus hábitos.
 
Mas, ao descerem em frente à casa (será que é este mesmo o número?) estranharam o movimento de muita gente que mais pareciam estar em uma festa que num velório.
 
Do fundo do quintal vinha um cheiro bom de carne assando, sons de conversas animadas e risos.

Quem os recebeu a porta foi um tio que ela não via há muitos anos e que rindo muito lhes contou que tinha havido um lamentável engano.

No hospital havia dois pacientes chamados Anacleto. O outro morreu e o funcionário fez a comunicação à família errada. Quando chegou o desmentido já tinham avisado todo mundo e não foi possível desfazer o engano.
 
-Já que estamos todos reunidos vamos aproveitar para matar as saudades e comer um churrasquinho juntos.
 
O Tonho se aborrece:

- Mas isto é um absurdo! Precisamos processar esse hospital!

- Que nada! Vamos dar graças a Deus por tudo ter terminado em festa!
 
Geralda, por fim, enco

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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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