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Publicado: Sexta-feira, 5 de outubro de 2007

A Morte da Padroeira

O dia amanheceu ensolarado na fazenda e João Valentim resolveu sair para caçar. Tinha o expediente de folga, pois era dia de Nossa Senhora Aparecida, a Padroeira do Brasil. Caçar era mais do que um passatempo e menos que uma diversão. Era questão mesmo de sobrevivência. Coelhos, tatus, esquilos e algumas espécies de pássaro podiam virar ótimas receitas em sua panela de simples caboclo.
 
O patrão tinha liberado suas caçadas, mesmo além dos limites da fazenda. João Valentim não precisava se afastar muito, pois a mata era densa e os bichos viviam à solta. Era uma simples questão de esperar, encontrar a presa e persegui-la. Foi o que fez ao avistar uma pequena raposa. Esperta ela saiu da mata e passou a correr entre o estábulo e a dispensa, mas seu caçador não desistiu.
 
O fato de não desistir não significa necessariamente que os intentos de João Valentim dariam certo. De espingarda nas mãos, perseguia a raposinha perto da dispensa quando tropeçou num cupinzeiro. Escorregou, caiu e a arma disparou. Foi grande seu susto quando percebeu que o projétil atravessou o vidro da cozinha. A gritaria foi geral. As mulheres que ali trabalhavam no momento saíram a correr.
 
Teria acertado alguém? Foi conferir, afobado. Ficou surpreso com o que viu. Em cima da mesa, um grande arranjo de flores estava sendo montado, todo colorido. No meio dele, o motivo de tanto enfeite: a imagem de Nossa Senhora Aparecida. Tratava-se de uma antiga peça, pertencente à família do patrão desde a fundação da fazenda, há mais de cem anos. No dia de sua festa, era levada da capela da fazenda até a Igreja Matriz, lá na cidade.
 
O que João Valentim viu, o aterrorizou. Seu tiro havia atravessado a janela e acertado em cheio a imagem da Padroeira. Eis que um buraco agora se fazia ver naquela peça de imenso valor para a família do patrão. Como contar a ele? Certamente seria despedido, com uma mão na frente e a outra atrás. Hesitou entre sair correndo e sumir ou tomar um pouco de coragem emprestado dos céus para ir ter com o patrão.
 
Não precisou dar um só passo. Lá fora o patrão já gritava seu nome. João Valentim saiu da cozinha e colocou-se na porta, com a espingarda em mãos. Quando o chefe perguntou o que havia acontecido e por que a mulherada toda tinha saído correndo desesperadamente, o enrubescido caboclo respondeu: “O patrão vai me perdoar, mas fiz uma grande bobagem... Eu acabei de matar a Padroeira com um tiro da minha arma...”.
 
O chefe não entendeu nada. Coçando a cabeça, pediu licença para entrar na cozinha. Então verificou o que tinha acontecido e parou para pensar. Nunca tinha imaginado que algo assim aconteceria, ainda mais no dia da grande e tradicional festa. Foi então que, coma voz firme que só um senhor de fazenda pode ter, aproximou-se do empregado para dizer:
 
“João Valentim, o que você fez foi muito grave. Esse tiro poderia ter acertado qualquer uma das mulheres da nossa cozinha. Felizmente isso não aconteceu. Por outro lado, seu disparo acertou a nossa centenária imagem de Nossa Senhora Aparecida, que está aqui desde que meu bisavô fundo esta fazenda.
 
Eu te peço, porém, que não fique triste. Você não matou a Padroeira. Ao contrário, tudo aconteceu porque Deus assim o quis. Chego a pensar que foi Nossa Senhora Aparecida que atraiu o tiro para si mesma, a fim de poupar alguma das cozinheiras de levar esse disparo. A imagem vale muito, sem dúvida. Porém, muito mais vale a vida de qualquer um de nós, não é mesmo?
 
A Padroeira não morreu e isso nunca poderá acontecer. Primeiro porque aquela é apenas uma imagem que admiramos, mas não passa de gesso. A Padroeira na verdade mora dentro dos nossos corações, na fé que temos em sua intercessão, na proteção que pedimos a ela. Isso ninguém poderá tirar da gente, nem com tiros ou ameaças. Podem nos levar tudo, mas a nossa devoção vive enquanto estivermos vivos nesta terra”.
 
João Valentim ouviu tudo em silêncio. Entre aliviado e comovido, agradeceu a compreensão do patrão. Foram os dois conversar com o padre lá na Igreja Matriz. O sacerdote, impressionado, decidiu que fariam a procissão mesmo assim. A imagem da Padroeira circulou entre a multidão de fiéis com a marca do tiro em evidência, prova concreta de mais uma intercessão milagrosa de Nossa Senhora Aparecida.
 
Amém.
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Visão de Mundo

Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é diácono transitório na Diocese de Jundiaí (SP) e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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