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Publicado: Sábado, 15 de agosto de 2009

A moça do capacete

É o que eu sempre digo: nada como abastecer o automóvel no posto de combustível logo de madrugada, para ter uma grata surpresa ao começar o dia. Com cara de sono, sem ainda tomar o café da manhã, lá estava eu encarando o frentista, naquele começo de dia chuvoso e sem graça. “Dez reais de álcool”, disse ao solícito funcionário, frase que poderia muito bem ser aplicada horas antes em algum boteco da cidade.
 
Enquanto observava os dígitos da bomba girarem, aproveitei para pentear as sobrancelhas (linda palavra!) no espelho retrovisor. Foi nele que avistei também uma motocicleta estacionar atrás do meu veículo. E, montado sobre aquele cavalo moderno de duas rodas, vislumbrei também o seu cavaleiro. Ou, melhor explicando, sua amazona.
 
Todos sabemos ser regra de trânsito que motociclistas devem andar devidamente equipados. Assim era com aquela amazona. Não chegava ao exagero de usar caneleiras, joelheiras e cotoveleiras. Mas usava luvas e o imprescindível capacete. Não obstante sua eficácia, o elmo negro não tinha força suficiente para prender dentro de si a beleza de lindos fios dourados escapando-lhe como a areia das mãos.
 
Fiquei ali, por três segundos paralisado, observando aquela visitante, a próxima a abastecer o seu meio de transporte. Os segundos restantes fiquei curioso mesmo. A amazona dos tempos modernos não se desfez de seu capacete. Acessório de segurança que poderia se encaixar melhor na categoria de máscara, haja visto que não me deixou ver nada de seu rosto.
 
Há teóricos a afirmar que todos usamos máscaras. Caminham pelas teorias obscuras da psicanálise e da psiquiatria, passando pela filosofia quântica e existencial. Usamos máscaras em casa e no trabalho, para fazer pose diante da sociedade e até mesmo para nos enganarmos a nós mesmos. Mas, pensando bem, aquele capacete não era uma máscara. Mais certo é dizer que se tratava de um véu. Pois aquele capacete, aquele véu, me impedia de realizar minha vontade momentânea: ver o rosto até então oculto.
 
Quem seria ela? Seus olhos me revelariam? Uma espiada mais profissional pelo retrovisor poderia me ajudar. Estreitando as retinas, percebi que a amazona tinha um olhar bonito. Que susto ao perceber ser também observado por ela. Seria possível? Talvez... Toda vez que você observar o espelho, lembre-se que o espelho também está observando você...
 
Desci do carro, meio atordoado por um turbilhão de sentimentos. Senti vontade de ir até ela e conversar. Mas um outro turbilhão, de pensamentos, me fez tomar caminho oposto. Acabei indo checar água e óleo do meu carro, de acordo com o que costumeiramente sempre fiz. E logo ali atrás, aquele capacete, aquele olhar a me observar...
 
“Dez reais, amigo!”, disse o frentista, interrompendo meus devaneios. Era tarde: meu ciclo no posto de combustível havia terminado. Mas será mesmo? Eis que outra ideia surgiu em minha mente. Com jeito inocente e despretensioso, pedi: “Dá pra jogar uma aguinha no parabrisa?”. Ufa! Minha salvação temporária!
 
No mesmo instante em que percebi o repentino mau humor do frentista que me atendia, congratulei-me por meus três segundos de esperteza súbita. Graças a isso eu poderia vislumbrar mais alguns momentos daquela linda visão de um... capacete! Um capacete... nada mais do que isso eu havia visto da minha inusitada musa!
 
Seria ela bonita realmente? E se, na verdade, aquele capacete estivesse me protegendo de uma feiúra grotesca? Um sorriso desdentado, um nariz enverrugado, uma pele enrugada? Como saber? Ó dúvida cruel! Maldita a hora em que nenhum fabricante teve a genial idéia de patentear capacetes transparentes, feitas de acrílico super resistente!
 
Assim que o frentista completou a pequena lavagem do parabrisa do meu carro, percebi que se tratava da chance final. Tomei coragem e resolvi interpelar a moça do capacete. Deixando o automóvel de lado, fui na direção dela. Ainda tive a chance de ver mais de perto seus olhos esverdeados, de relance. E no segundo seguinte, seu pé bateu no pedal e a motocicleta partiu, restando em minha lembrança o som irritante daquele escapamento...
 
Naquela manhã decidi mudar minha vida: prestei concurso para a Polícia Rodoviária. E hoje, já com dez anos atuando na guarda, faço questão de parar, seja na cidade ou nas rodovias, qualquer moça de capacete que passe pelo meu posto de vigilância. Não dou multas, nem faço checagem de documentação. Apenas quero vislumbrar de novo aqueles olhos verdes que mudaram o meu destino.

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Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é diácono transitório na Diocese de Jundiaí (SP) e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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