Colunistas

Publicado: Segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

A Missa do Sétimo Dia

Fazia anos que não ia a Igreja.
 
Na sua infância e juventude fora assídua aos eventos religiosos, mas, depois, foi perdendo o hábito e, agora, só raramente adentrava um Templo para assistir a um casamento, ou outro acontecimento especial, mas, aquela era a missa do sétimo dia de seu marido e ela compareceu, muito triste, esperando encontrar os parentes e amigos compenetrados e chorosos participando de sua dor.
 
Como a data coincidia com o dia da padroeira da Igreja, estava havendo uma festa e a missa seria celebrada, também, em homenagem à Santa.
 
Até ai, nada demais. Só que ela não imaginava o estilo da tal festa.
 
O povo cantava, gritava, batia palmas, dava vivas. A música, composta por teclados, sanfonas, violões, tudo na maior desafinação possível, enchia o ambiente de ruídos ensurdecedores, silvos, roncos, assobios e tudo o mais que se possa imaginar para agredir os tímpanos alheios e escandalizar quem tivesse um mínimo de bom gosto musical. Enquanto isso, os padres e seus ajudantes leigos rebolavam no altar como se estivessem participando de uma escola de samba ou coisa que o valha, imitados pelos fieis de todas as idades.
 
E a pobre viúva, perdida no meio da confusão só queria estar num lugar tranqüilo para chorar. Será que alguém ali estava rezando? Seria possível conseguir uma interiorização, uma sintonia com o Divino para rezar e, principalmente, para sentir a resposta a sua prece?
 
No momento da oração pelos mortos o Padre atropelou meia dúzia de nomes de pessoas para quem a Missa fora encomendada. O nome do seu querido extinto estava no meio e o Padre pronunciou errado, mas Ela não se importou muito com isso, pois sabia que, de qualquer modo, ninguém ali estava ouvindo nada, mesmo.
Lembrou com saudade as Missas de sua infância. A música suave, o canto chão, as orações rezadas em recolhimento...
 
O que via agora lhe parecia uma falta de respeito, não só para com aqueles que acabaram de sofrer uma grande perda e estavam tristes e fragilizados, mas, principalmente, para com o Sacrifício do Filho de Deus que a Santa Missa simboliza.
 
Em outro Plano, porém, Anjos sorridentes dançavam ao som da música que vinha da Igreja. Santas que viveram na austeridade do Claustro admiravam a descontração, a alegria, a liberdade de expressão acompanhava o ritmo e participavam da festa, enquanto os mártires constatavam como é fácil ser Cristão, hoje em dia.
 
E o Divino Senhor das Vidas, conhecedor das profundezas da alma de cada um de nós, chega até à desconsolada viúva, perdida em sua dor, e estende-lhe a mão, generosa e forte, para ajudá-la a transpor este momento de tristeza e continuar sua caminhada, cumprindo, assim, Seus sábios desígnios para Ela.
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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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