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Publicado: Sábado, 14 de novembro de 2009

A idade da pedra

Desde que deixou de habitar as cavernas, o homem destacou-se na natureza por sua capacidade de inventar. Inventou tudo o que fosse necessário para a sua sobrevivência. A partir da invenção da roda, deu o primo giro na roleta tecnológica. Desenvolveu as ciências e as artes, assim como as convenções sociais. Tudo me faz crer que posso resumir a humanidade como a arte de inventar compromissos.

Compromisso com o desenvolvimento, com a pesquisa, com o estudo das ciências. Compromisso com a sociedade, com a religião, com os sistemas de governo, com as autoridades. Compromisso com a fabricação, com a engenharia, com a construção de tudo o que seja útil para tornar a vida cada vez mais cômoda e longeva.

Por consequência, o homem criou também invenções nada agradáveis. Criou o dinheiro, o trabalho escravo, a exploração dos seus semelhantes. Criou os acidentes e crimes, as frustrações pessoais, os desvios de caráter e os problemas psicológicos. Criou a angústia e a depressão, bem como a inveja e a corrupção.

Com apenas 45 anos de idade, Alfredo já enfrentava seu segundo infarto. Não sofria de doenças coronárias. Seu mal era a vida moderna. O trabalho estressante, a má alimentação, as preocupações cotidianas com o futuro e as contas a pagar no presente.

Ainda no hospital, decidiu fazer uma mudança radical em sua vida. “Acho que na pré-história os homens eram mais felizes”, pensou. “Não havia bancos e boletos, trânsito e engarrafamentos, assaltos e assassinatos”. Alfredo decidiu voltar à Idade da Pedra em pleno século 21.

Chegando em casa, cancelou o serviço telefônico e a internet. Fez o mesmo com a água e a energia elétrica, cujos serviços mandou cancelar. Ao gerente do banco, avisou que estava indo embora para Pasárgada, onde era amigo do rei. Telefonou ao patrão colocando o emprego à disposição, alegando não desejar um terceiro infarto antes de seus 80 anos.

Para a sobrevivência diária, inspirou-se nos ancestrais. Passou a buscar água na bica do bairro vizinho. Tirou as cortinas da casa para aproveitar a luz do dia. De noite, usava velas feitas com gordura colhida gratuitamente nos açougues do Mercado Municipal. Passou a conversar apenas com quem o visitava ou o encontrava na rua.

O carro virou um enfeite. Passou a trabalhar em troca de alimentação, inaugurando para si o “workfood” (trabalho-comida). As idas e vindas da bica, carregando dezenas de baldes e galões durante o dia, renderam-lhe uma ótima forma física. Perdeu peso e criou músculos. Depressões e angústias sumiram, pois simplesmente não havia mais tempo para dedicar-lhes.

Não participou mais de reuniões e palestras, deixou de fazer relatórios e balancetes. De imposições, somente aquelas que as próprias circunstâncias da vida apresentavam. Percebeu que ser um homem das cavernas na era da modernidade fez-lhe um bem danado.

Os antigos amigos e parceiros de escritório estranharam seu novo visual: cabelos compridos, barbas longas, roupas rotas. Mas também nunca mais o procuraram para nada. Em compensação fez novas amizades com o pessoal lá da bica. Sem contar nas pessoas da vizinha para quem prestava o seu serviço workfood.

Passados 40 anos, finalmente faleceu. Foi o terceiro infarto. Porém, conseguiu levar a cabo aquele propósito tomado no hospital vários anos antes. Durante o velório, notava-se em sua fase um sorriso de satisfação, digna dos que aproveitaram a vida para realmente viver.

E como todos os seres viventes, engravatados ou não, estressados ou não, com o nome no SPC/SERASA ou não, foi sepultado e teve seus restos mortais decompostos pela Mãe Natureza. Prova final e definitiva de que, desde a Idade da Pedra, todos deixam esta terra do mesmo modo.

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Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é diácono transitório na Diocese de Jundiaí (SP) e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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