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Publicado: Domingo, 7 de julho de 2013

A homossexualidade tem cura?

A homossexualidade tem cura?
"Quem iria querer viver como minoria em um país ainda tão preconceituoso como o nosso?"

Minha geração, nascida na década de 60, foi formada e educada sob forte influência da teoria behaviorista. Aprendemos, em casa e na escola, a desprezar a subjetividade humana e suas manifestações e a supervalorizar comportamentos condicionados.  

Com isso, desenvolvemos a ideia de que o sujeito homem é um ser único, homogêneo e, portanto, seu comportamento também é padronizado e controlado. Crescemos acreditando que o padrão homem e o padrão mulher seguem diretrizes lineares. 

Nesse sentido, é fácil compreender por que muita gente ‒ sobretudo os  mais velhos ‒ insiste em denominar toda e qualquer conduta fora do padrão como sintoma patológico advindo de estímulos desajustados. Quer um exemplo? Basta observar conversas descompromissadas em reuniões familiares: haverá sempre a opinião de um tio ou uma tia de que a culpa por aquele jeito afeminado do garoto é dos pais, que não souberam educar direito.

Por isso, o assunto é complexo e polêmico; abordo-o com cuidado e respeito. De um lado, toda uma geração comportamentalista tentando compreender a diversidade humana a partir de velhos paradigmas. De outro, o poder político, desgastado e corrupto, atuando em benefício de causas próprias.   

Ao aprovar o projeto de lei conhecido como “cura gay”, a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados atuou em benefício de um grupo de pessoas que, pouco flexível para rever seus conceitos, deu a entender ‒ desprezando inclusive as normas do Conselho Federal de Psicologia ‒ que a homossexualidade é doença.

Doença?

A homossexualidade não é doença, nem problema psicológico. Não é de hoje que pesquisadores do mundo inteiro se dedicam ao tema, buscando respostas à diversidade sexual humana. Na USP, a renomada profissional Edith Modesto inaugurou sua pesquisa quando soube que seu filho mais novo era homossexual. Confusa emocionalmente, entregou-se ao tema de forma séria e científica; e a sua produção tem ajudado centenas de pais a amar e acolher seus filhos homossexuais. 

Ainda que os pesquisadores não tenham conseguido esclarecer o porquê uma pessoa sente-se atraída afetiva e sexualmente por alguém do sexo oposto e outra, por alguém do próprio sexo, é sabido cientificamente que a homossexualidade não é doença e muito menos escolha.  

“Quem iria querer viver como minoria em um país ainda tão preconceituoso como o nosso? E os filhos de famílias religiosas, por que optariam por algo condenado por sua fé?”, questiona Edith em um de seus livros.

O sofrimento de muitos pais ao descobrirem que têm um filho ou uma filha homossexual é agravado pela total influência da concepção comportamentalista. Por incrível que pareça, os reflexos da visão behaviorista ainda ditam normas para a tolerância e convivência social. Nas escolas, inspiram condutas profissionais.  

Já acompanhei professores e diretores tratando a homossexualidade como doença psicológica; ou ainda a justificando como consequência de famílias desestruturadas. Em um dos livros de Edith Modesto, em que publica depoimentos de mães sobre a dolorosa aceitação de um filho ou filha homossexual, chama atenção um depoimento que diz: “Naquela ocasião, o diretor da escola me perguntou se ele poderia conversar com o meu filho. Eu agradeci e disse que eu mesma faria isso. Aí ele quis me indicar um médico para reposição hormonal...”

É temerosa a ideia de cura e transformação de uma orientação sexual por outra. Mais ainda quando essa atitude surge de instituições legitimadas, como escolas e Câmaras de Deputados. Edith nos ensina que “o papel da escola e dos educadores, assim como das lideranças políticas (complemento meu), é muito importante na reformulação dos conceitos de modo geral, visando o respeito ao outro e a construção de valores democráticos”.

Assim, posso tranquilamente responder à pergunta que intitula esta crônica, dizendo que: primeiro, a homossexualidade não tem cura, porque ela não é doença e; segundo, que se existe algo a curar nesta complexa e difícil existência humana são os preconceitos, os conceitos deturpados e a total ignorância da sociedade sobre a homoafetividade.

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Conversas Entrelinhas

Mércia Falcini

Mércia Falcini

Psicopedagoga com Especialização em Formação de Professores e Sistema de Gestão. Atualmente é Diretora da Consultoria e Assessoria Saberes, Membro Fundador da Academia Saltense de Letras e colunista do site Itu.com.br.

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