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Publicado: Segunda-feira, 17 de novembro de 2008

A Flor do Dia

Véspera de Natal.

Que correria!

Gabi andara a tarde toda, entrando e saindo de lojas superlotadas para comprar os presentinhos de última hora.

Estava cansada. Naquele ponto em que nada mais parecia interessante e ainda faltava comprar muita coisa...
 
Prometera a si mesma, aliás, essa promessa vinha repetindo ano após ano, que compraria tudo com antecedência e até tentou fazer assim, mas, como sempre, acabaram ficando compras para a última hora.

Ainda faltava o presente da futura sogra. Estava noiva há pouco tempo e não tinha muita intimidade com a mãe dele. Que compraria para ela?

Gabriel tinha dito que na família dele costumavam trocar presentinhos baratos e que ninguém dava coisas mais caras para evitar constrangimento.

Estava certo. Por muito que digam que o que importa não é o valor do presente, todo mundo sabe que não é bem assim.

Para o Gabriel comprara uma loção de barba do seu (dela) perfume predileto, para o pai, um livro. Para o irmão dele, um CD, para a irmã, um estojo de maquiagem, para a avó, uma caixa de sabonetes finos... E para a mãe dele? Que comprar?

Foi então que, passando por uma floricultura chamou-lhe a atenção um vaso de flores lindíssimas. Estava resolvido o seu problema. Flor é presente barato e sempre apreciado e aquelas estavam realmente, muito bonitas.

Levou o vaso para casa e colocou-o na área de serviço.
 
À noite, aprontou-se para esperar o Gabriel que vinha buscá-la para a festa de Natal, na sua casa.

Quando foi pegar o vaso, no entanto teve uma desagradável surpresa. As flores tinham murchado e o vasinho tão gracioso tinha agora uma aparência desoladora com os galhos cheios de flores murchas.

Que fazer agora?
 
Resolveu não contar nada ao Gabriel sobre as flores murchas.

Quando ele chegou, pediu-lhe para passarem por uma floricultura para ela comprar outro vaso.

Gabriel não gostou muito:

 -Por que não providenciou isso antes? Agora não vamos encontrar floricultura aberta, melhor desistir do presente.

- Mas Gabi – insistiu -  Na noite de Natal as lojas ficam abertas até mais tarde. Vamos poder comprar o meu presente, sim!

Mas, rodaram pela cidade toda e é claro que não acharam loja alguma funcionando, pois já era quase meia noite.
 
Já meio impaciente Gabriel quase que a obrigou a ir à sua casa sem levar o presente. Gabi tinha vontade de chorar pensando que todos iam reparar que ela presenteou todos, menos à mãe dele.

A festa estava animada. Todos conversando, rindo, comendo ou dançando. Só Gabi não conseguia participar de nada.

Na hora da troca de presentes foi uma confusão tal que ninguém viu quem deu o que para quem e ela tentou acreditar que ninguém reparara na sua gafe.

Mas estava super-mal. Uma raiva surda a dominava. Raiva da mocinha da floricultura (ela devia saber que a flor era fajuta) raiva do Gabriel (coitado! Que culpa ele teve? Levou-a a todas as lojas, mas ela achou que ele estava impaciente com ela) raiva da sogra (Por quê? Simplesmente por existir?) raiva de si mesma por ser tão idiota e ficar odiando os outros por uma coisa de que ninguém tinha culpa.

A noite foi longa. Ela estava de cara amarrada e o Gabriel, aborrecido, é claro.
 
Quando falou em ir embora, ninguém insistiu para que ficasse mais. Todos perceberam que ela não estava bem, mas não atinavam com o motivo.

Em casa, na sua cama, chorou tudo o que tivera vontade à noite toda. Que coisa mais boba! Contando, ninguém ia achar que ela tinha motivo para estar tão pra baixo, porém, além do constrangimento de não ter retribuído o presente da futura sogra ainda a consciência de ter feito papel de mal educada, ficando emburrada na festa.

Todo mundo sabe que a criatura que pretende entrar para uma família, fica na berlinda, todos a observam, dão palpite e procuram os senões para criticar. (Depois acostumam, deixa de ser novidade e, ou gostam ou não gostam e pronto)!

Mas, imagine só o que não deviam ter falado dela depois que foi embora! Custou a pegar no sono e levantou-se com o sol alto.

Foi então que abriu a porta da cozinha e teve uma surpresa. O vasinho estava todo florido, tal como o havia comprado.

De repente o mistério desvendou-se. A vendedora da floricultura dissera que essa flor era a Flor do Dia, mas ela nem prestou atenção. Então era isso, ela abria durante o dia e fechava a noite para dormir. Que coisa linda!

Gabi criou alma nova. Quando Gabriel veio buscá-la para o almoço ela estava toda sorridente e ele exclamou:

- Esta é a minha Gabi! Assim é que eu gosto de te ver! Mas o que foi que aconteceu ontem que a deixou tão aborrecida e o que aconteceu hoje para mudar tanto?
 
Gabi contou toda a história da Flor do Dia e os dois riram muito da peça que a planta pregou nela.

Juntos foram levá-la então para a mãe dele e riram mais um pouco quando contaram a ela toda a "tragédia".

O incidente serviu para quebrar o gelo. Depois disso ela e a futura sogra puderam tratar-se com naturalidade, sabendo cada uma que a outra não é perfeita (por que o seria?) e que gafes acontecem com todo mundo.
 
 
 
 
 
 
 
 
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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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