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Publicado: Segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

A família dele

Quando Roberto convidou Helena para almoçar com sua família no Dia das Mães, Helena ficou radiante.

Muito só, as datas comemorativas eram, em geral, tristes para ela. Os amigos dispersavam-se, cada qual para junto dos seus e ela sempre acabava ficando só. Tinha muita vontade de conhecer a família do Roberto, pois ele sempre falava com muito carinho de todos. Era muito apegado aos seus e isto parecia a Helena uma de suas melhores qualidades. “Dizem que o bom filho sempre dá bom marido!”

E, por falar em marido, o convite para ir a sua casa sugeria um namoro sério, quem sabe um próximo pedido de casamento...

Helena produziu-se o melhor que pode para o evento. Um modelito elegante e moderno, sandálias finas, uma joiazinha, uma maquiagem caprichada, um buquê de flores para oferecer a Mãe homenageada.

Mas, chegando a sua casa teve uma surpresa.

Ela esperava um almoço meio formal, servido na sala com a presença dos pais e irmãos de Roberto, no máximo seis ou oito pessoas, mas o que a esperava era um movimentado almoço de fundo de quintal a base de churrasco.

À volta de uma enorme e rústica mesa de tabuas sobre cavaletes, espremiam-se umas vinte mulheres, comendo e conversando animadamente enquanto os homens tomavam conta da churrasqueira, servindo-as atenciosamente, bem passada pra esta, mal passado pra aquela, uma linguicinha daqui, um queijinho dali...

Quando Roberto e Helena aproximaram-se da mesa, fez-se silêncio os garfos com carne espetada pararam no ar e todos os olhares dirigiram-se para Helena que muito desconcertada sentiu-se corar.

Roberto apresentou todo mundo rapidamente, Cleuza, Fátima, Vó Amélia, Tia Mariquinha... Todos sorriram amarelo e Helena teve ímpetos de sair correndo dali.

Quase um século depois a mãe do Roberto veio cumprimentá-la.

Pegou o buquê que ela lhe oferecia com visível indiferença e imediatamente pediu para alguém colocá-lo sobre a pia onde ficou o resto da tarde murchando. Com certeza teria preferido ganhar um par de chinelos ou uma panela pipoqueira. - pensou Helena.

Alguém apareceu com um banquinho e colocou num canto de mesa entre a mãe e a Tia Mariquinha convidando Helena para sentar-se.

O papo corria solto.

Mães contando as gracinhas de seus filhos e criticando a falta de educação dos
filhos das outras. Maledicência. Vidas alheias sendo devassadas, arrastadas pela lama sem dó nem piedade. E Helena aborrecida, sem graça, arrependida de ter vindo:

Ainda bem que não conheço ninguém de quem estão falando. Não tenho nada com isso!

A “sogra” tentando ser gentil puxou conversa com Helena;

- Você não vai visitar sua mãe, hoje?

- Não. Minha mãe é doente e não pode receber visitas.

- Nossa! Deve ser muito grave mesmo para não poder receber nem a filha!

- É um problema mental.

- Que horror!

Helena recriminou-se por estar falando essas coisas, mas a outra perguntava e ela não sabia como não responder.

- Faz muito tempo?

- O quê?

- Que sua mãe está internada.

- Dezoito anos.

- Nossa! Você era pequena ainda. Quem foi que acabou de criá-la?

- Eu cresci em um colégio interno.

- Orfanato?

- Não! Um colégio de madres muito bom.

- Hammm!

- E seu pai?

- Ele divorciou-se de minha mãe, casou-se de novo e mora no exterior.

- Fugiu das responsabilidades! Os homens são todos assim mesmo!

Helena odiava o rumo que a conversa tomara, mas continuava respondendo como se tivesse que dar satisfações àquela mulher da vida de seus pais:

- Ele não fugiu de suas obrigações. Pagou todo o meu estudo e ainda paga o tratamento de minha mãe. Deu-me mesada até que eu começasse a trabalhar e ainda me manda um dinheirinho de vez em quando. Não tenho queixa nenhuma dele.

A estas alturas todas as ocupantes da mesa estavam em silêncio olhando para ela. Sua história estava interessando a galera. Fofoca nova!

Quando Roberto apareceu com um espeto perguntando se queria provar o filé de carneiro ela pediu:

- Leva-me pra casa! Estou com um pouco de dor de cabeça. Gostaria de descansar.

- É muito cedo, meu amor, tome um comprimido que já passa a dor de cabeça.

Como que por encanto apareceram nas mãos de Helena um copo de água e um comprimido de analgésico.

Tentou recusar:

- Não é preciso...

- Tome que é bom!

E ela engoliu o remédio de que não precisava com toda a raiva surda que a dominava

- Quer deitar um pouco? Vá lá dentro, deite na minha cama.

- NÃÃO!!

Controlou-se:

- Não, obrigada, já está passando.

A Tia Mariquinha já tinha bebido mais do que devia e os outros a incentivavam a beber mais ainda porque, diziam, ela ficava muito engraçada de pileque.

O “engraçada” era contar piadas picantes. Quanto mais bebia mais ousadas eram as histórias, mais chulo o palavreado e mais sonoras as gargalhadas de todos.

E Helena mais deslocada do que nunca!

De repente ela observou que havia um portãozinho ao fundo, perto da porta do banheiro.

Discretamente levantou-se como se fosse ao banheiro. Chegou a entrar e fechar a porta por uns instantes, mas depois saiu e rapidamente escapou pelo portãozinho para a rua..

Horas depois Roberto deu pela falta dela:

- Cadê a Helena?

- Sei lá! Ela estava aqui, depois sumiu. Pensei que estivesse com você.

Roberto adivinhou logo o que devia ter acontecido e ficou furioso:

- O que foi que vocês fizeram ou disseram para ela fazer uma coisa dessas?

- Nada demais. Essa moça é muito esquisita.

- Pudera! Filha de mãe louca... pai ausente... Criada em internato...

- Anti-social. Não sabe conviver, conversar, muito estranha mesmo!

- Chega! Berra Roberto e raivoso, pega o telefone e liga para Helena:

- Que papelão foi esse que você fez!

Mas Helena estava mais furiosa ainda e revidou:

- Papelão fez você que não me avisou que o almoço era no fundo do quintal e me deixou ir ridiculamente vestida. Que me deixou sozinha no meio daquelas cobras: que não quis me trazer quando eu pedi!

Papelão fez sua mãe que jogou as flores que levei pra ela; que fez um monte de perguntas indiscretas, que falou mal de meu pai sem nem ao menos conhecê-lo.

Papelão fez a sua Tia Mariquinhas falando bobagens para divertimento daquele bando de idiotas!

Roberto baixou a guarda.

- Eu vou até ai pra gente conversar.

- Melhor não. Se você vier, nós vamos brigar e já tivemos aborrecimentos de sobra por hoje. Dê um tempo!

Depois disso o namoro foi esfriando..

Helena ai

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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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