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Publicado: Quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

A Dor da Vida

Crédito: APCRC A Dor da Vida

Como lidar com a angústia de uma expectativa frustrada? Quais seriam os mecanismos para suportar um sonho que não aconteceu? O que fazer com as consequências emocionais que tais frustrações proporcionam? Quem nunca desejou muito alguma coisa que acabou não acontecendo?

 

A pergunta inicial suscita a ideia de uma resposta muito complicada, no entanto, a melhor forma de lidar com uma expectativa frustrada é justamente encarando o fato de que o problema aconteceu e não tem como fingir que não é verdade. Faz-se necessário lançar um olhar sobre a questão e dissecá-la. Entender seus pormenores, não como uma forma de ficar revivendo os maus sentimentos ou como uma maneira de se manter preso àquela realidade angustiante e sim como um exercício de autorreflexão.

 

A realidade está posta, está aí diante de nós, se apresenta todos os dias, pode ser no mínimo boa ou ruim, mas ainda assim não temos como escapar de suas amarras sem cair num estado doentio, pois quem foge da realidade é tido como doente mental.

 

Por mais difícil que pareça, a vida e nossas escolhas nos colocam nessa teia de relações e significados, fazendo com que tenhamos que suportar às vezes cargas muito pesadas em termos emocionais, porém ainda não é possível escapar disso sem cair no engodo da alienação de si mesmo. 

 

As consequências emocionais fazem parte do desenvolvimento de uma vida saudável, ninguém humano, ninguém sadio, vive uma vida inteira sem sofrer com frustrações de todo tipo. As frustrações servem para nos situar diante da vida, ajudando-nos a entender que integramos um coletivo, com regras e valores construídos para facilitar, orientar e às vezes tolher a convivência.

 

O sofrimento é um dado da vida, não menos ou mais do que nada que já tivemos acesso quando somos colocados nesse mundo por escolha de terceiros. Ele nos ambienta e protege, lembra-nos de nossa finitude e nos faz sermos cautelosos em situações extremas.

 

Sem o advento das frustrações e, consequentemente, dos sofrimentos, cresceríamos com a certeza de que podemos tudo em qualquer circunstância, viveríamos no princípio do prazer, sem a mínima tolerância a qualquer tipo de dor psíquica.

 

As novas gerações estão crescendo com baixíssima tolerância às frustrações. Pais culpados delegando a criação e seus filhos à terceiros, sendo quase sempre permissivos na educação pelo medo da perda do afeto, aceitando tudo a qualquer tempo. Filhos escondidos por detrás de ambientes e realidades virtuais, construindo suas vidas cotidianas apoiados em existências fantasiosas, não possuem a mínima condição emocional de lidar com rejeições e problemas. E o que fazer diante de tal condição?

 

Há a urgência de retomarmos velhos conceitos de afeto, presença, exemplos. A criança aprende muito por mimese (imitação) e, sendo assim, a melhor forma de educar é ainda demonstrar com atitudes e amor aquilo que se fala. Quando assistimos o amor materializado nas ações temos condições de internalizar o significado das vivências. É preciso também permitir a frustração. Muito mais do que tentar impedí-la, é crucial deixá-la eclodir nas dinâmicas da vida e ir acolhendo seus efeitos e dissecando seus significados.

 

A dor e o amor às vezes se confundem numa caminhada de crescimento rumo ao autoconhecimento, dando-nos subsídios para uma vida plena, saudável e repleta acontecimentos reveladores.

 

Deixe que o pulsar da vida nos invada e desperte em nós toda uma esperança amortecida de dias melhores, de relações mais satisfatórias, de encontros alegres. Que não nos limitemos a passar pela vida das pessoas sem deixar marcas significativas e agregar valores positivos em suas existências.

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Ana Paula Cavalheiro

Ana Paula Cavalheiro

Formada em Ciências Sociais pela USP-SP e em Psicologia pela Unimep e especialista em Psicopedagogia.

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