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Publicado: Domingo, 11 de fevereiro de 2007

A Dança da Solidão

A Dança da Solidão
"Ser triste é pior que ser sozinho"
Para a grande maioria das pessoas, samba é aquilo que se ouve no desfile de escolas na Sapucaí. Há também quem o confunda com ritmos mais na moda, como o pagode e o axé. Entretanto, o chamado “samba de raiz” é muito diferente de tudo isso. Pra começar, suas letras têm sentido. São poéticas e nos fazem pensar sobre a vida. Bem longe do festival de frases desconexas pra combinar com coreografias estranhas.
 
Pode-se aprender algo com um samba? Sim, como se pode aprender com tudo nesta vida. “Dança da Solidão” é uma composição de Paulinho da Viola, com letra de Marisa Monte. Dois gênios da música popular brasileira, reconhecidos internacionalmente. Desejando aos leitores um Carnaval sereno e em segurança, com muita animação saudável e pausas para o descanso, deixo a todos algumas reflexões sobre esta que é uma das mais belas músicas que já ouvi, para quem gosta do gênero.
 
Solidão é lava que cobre tudo / Amargura em minha boca / Sorri seus dentes de chumbo
Solidão palavra cavada no coração / Resignado e mudo / No compasso da desilusão
Desilusão, desilusão / Danço eu dança você / Na dança da solidão.
 
Eis uma palavra negativa. Quem é obrigado a conviver com a solidão acaba sofrendo um bocado. Trata-se de um grande medo do ser humano: ser, estar, ficar sozinho. Com a solidão sofrem os doentes, os encarcerados, os discriminados. Sofrem os que se fecham ao amor dos parentes e amigos, da comunidade e também de Deus. Não fomos feitos para viver sozinhos, precisamos uns dos outros. Sendo assim, há coisa pior do que não se sentir necessário a alguém ou então pensar que não necessita dos outros?

Camélia ficou viúva / Joana se apaixonou / Maria tentou a morte, por causa do seu amor
Meu pai sempre me dizia / “Meu filho tome cuidado / Quando eu penso no futuro, não esqueço o meu passado”.
 
A enxaqueca é sentida na cabeça. Os calos ficam doendo nos pés. A solidão é coisa do coração, lugar onde também ficam gravadas todas as nossas desilusões. Sendo otimista, a desilusão pode ser algo bom. Principalmente quando aprendemos com ela, passamos a refletir mais sobre certas coisas e a nos preparar melhor para continuar encarando a vida. A outra alternativa a isso é ser pessimista. É ficar amargo depois de cada decepção. É perder a esperança nas pessoas e na própria vida. É entregar-se à tristeza e deixar aos poucos de viver o que ela tem de bom a oferecer. A escolha é de cada um. Porém sempre há uma escolha.
 
Quando vem a madrugada / Meu pensamento vagueia / Corro os dedos na viola, contemplando a lua cheia.
Apesar de tudo existe / Uma fonte de água pura / Quem beber daquela água não terá mais amargura.        
 
A solidão em excesso tem um efeito maligno, tornando as pessoas amargas, insensíveis e egoístas. Daí entra o papel fundamental da religião na vida das pessoas. Quem tem Deus em sua vida jamais fica totalmente solitário. Tudo pode acontecer: separações, viuvez, mudança de cidade e de trabalho. O que nunca muda é o fato de que o Senhor está sempre conosco em todos os momentos. Caminhando na presença de Deus, nunca estaremos sozinhos. E mesmo nos momentos de tristeza e de solidão, nosso Pai se fará presente e solícito. O Senhor enxugará as lágrimas de todos os olhos, libertará todos de seus sofrimentos. Será a nossa “fonte de água pura”, sempre disponível para lavar o nosso passado e saciar a nossa sede de felicidade.
 
Amém.
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Visão de Mundo

Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é diácono transitório na Diocese de Jundiaí (SP) e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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