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Publicado: Segunda-feira, 2 de março de 2009

A Coisa

Hermogênia era uma pessoa de muita Fé e muita Coragem. Não tinha medo de nada. Era só no Mundo, mas realizava o milagre de ser uma excelente companhia para si mesma, de modos que, preenchia o seu tempo com mil e um afazeres que lhe enchiam as horas e satisfaziam-lhe o ego.
 
Toda tarde tinha o hábito de sentar-se numa cadeira de balanço e ficar muito quieta e pensativa assistindo o fim do dia... A noite chegando... As estrelas aparecendo...
Era seu momento de interiorização, de reflexão, de lembranças, de saudade... E foi numa dessas tardes, começo de noite, que aquilo aconteceu.
 
Primeiramente foi um barulho na cozinha, como se todas as panelas tivessem saído misteriosamente do armário e rolado barulhentamente pelo chão seguido por suas não menos ruidosas tampas.
- Credo! Que será isso?
 
Logo em seguida ouviu um ruído como se alguém a chamasse:
-Pssiu!
 
Começou a ficar preocupada. Nunca tinha visto nada sobrenatural, mas, uma vez sempre é a primeira...
 
Olhou sobre a mesa onde deixara uma folha de papel e uma caneta e viu a folha se mexendo e a caneta, em pé.
- Nossa! É uma mensagem!
- Psicografia? ...
- Não.... psicofonia? ...
- Também não!
- Como é mesmo o nome?
- Escrita Direta!
- É... Parece que é isso... Mas que é apavorante é!
 
De repente alguma coisa atravessou a sala com um ruído esquisito deixando atrás de si um rastro luminoso que logo sumiu. Hermógenes estava paralisada. E, então, ouviu chamarem o seu nome.
 
Não era uma voz humana, era um som que parecia vir de muito longe e repercutia dentro dela:
- H –e-r-m-o-g-ê-ê-ê-n-i-a-a-a-a
 
E, como se não bastasse, uma figura humana começou a desenhar-se a sua frente, junto à porta de entrada, fechada.
 
Hermogênia tentou rezar:
- Pai nosso que estais nos céus...
- Não! Acho que é melhor o Credo...
- Crendospadre todo poderoso...
 
E foi então que novamente a coisa atravessou a sala zumbindo e bateu na sua cabeça como se fosse uma pedra. O negócio estava materializado!
 
Apavorada, ela deu um grito e um pulo, alcançou o interruptor e acendeu a luz... A sala estava como sempre, nada de anormal. Sobre a mesa a folha de papel e a caneta no lugar onde ela os deixara. Escritos, apenas as anotações que ela mesma fizera pouco antes. Chegou até a porta da cozinha e espiou de longe. Uma latinha vazia, que estivera sobre a pia, estava caída no chão.
 
- Puxa! Como é que uma latinha tão pequena pode fazer tanto barulho?
 
E, então, ela viu a coisa.
Um inofensivo besouro caído no chão tentando se locomover com dificuldade.
- Um besouro! Há quanto tempo não via esse bicho! Pensei até que ele já estivesse extinto!
 
- Pensei nada! Imagine se, alguma vez, eu cogitei se os besouros estariam, ou não, em extinção!
 
E, raivosamente, agarrou o cascudinho, atirou para fora da janela e fechou a vidraça.
- Ainda bem que eu sou uma pessoa de muita Fé e Coragem! Não tenho medo de nada!
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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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