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Publicado: Segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

A Casa

A pequena casa, igual a dezenas de outras construída na nova vila de classe média, lhes parecia um palácio.
 
Era a sua primeira Casa Própria os dois estavam eufóricos, realizados, cheios de planos para o futuro.
 
As crianças corriam de cá para lá explorando cada cômodo, cada palmo do quintal, a rua, a vizinhança.
 
No bairro novo, simpático e promissor, já moravam alguns amigos e parentes.
 
A família teve, desde logo, um círculo de amizades que foi ampliando-se, envolvendo toda a vizinhança.
 
Esses bairros novos e distantes costumam conservar os costumes das cidades pequenas onde todos se conhecem e as boas amizades nascem, florescem e frutificam-se.
 
O tempo foi passando... 
 
Pouco a pouco as casas da vizinhança foram sendo reformadas adquirindo um design personalizado. Casas de luxo foram construídas e o "Jardim" teve seus dias de glória.
 
Era chique morar ali!
 
As crianças foram crescendo.
 
A Casa, alegre, barulhenta, sempre cheia de amigos, parentes, vizinhos, colegas, namorados, tinha sempre um ar de festa...
 
E os anos foram passando, uns após os outros, parecendo cada vez mais apressados para chegar... Aonde?
 
A família começou a diminuir...
 
Os filhos foram casando, formando novos núcleos... Os parentes e amigos mais velhos deixando este Mundo e, parece que, breve demais, o casal se viu só entre as já velhas paredes.
 
Poucos amigos lhes restaram quando, doentes e cansados, não podiam mais receber como antes.
 
A Casa, de repente, lhes pareceu grande demais, velha demais, insegura e frágil e resolveram mudar-se para um apartamentozinho novo, confortável e prático.
 
E a areia correndo sem parar na ampulheta do tempo...
 
A velha Casa fechada, guardando as lembranças de toda uma vida, ficou abandonada, carcomida pelo desgaste do tempo e pelo vandalismo de alguns marginais.
 
Os filhos, então herdeiros, resolveram reformá-la.
 
A grande reforma foi feita. Pouca coisa permaneceu da velha estrutura.
 
A Casa, agora reformada não parecia mais a mesma. Qual velhota vaidosa recém saída das mãos de um cirurgião plástico, ela ergueu-se, imponente e bela, disfarçadas as marcas da idade sob as camadas grossas de revestimento vistoso, destacando-se entre as demais casas da rua e atraindo a atenção de todos que desejavam comprar uma bonita casa para morar.
 
Os irmãos, entretanto, relutavam ante a idéia de entregá-la para estranhos.
 
Ali estavam encerradas as mais gratas lembranças de sua infância e juventude, dos pais, agora, distantes, intocáveis, perdidos para sempre no infinito... Dos amigos barulhentos que se perderam pelos inúmeros caminhos da vida... Dos namorados, hoje maridos, que, bem... Nunca é a mesma coisa...
 
Todos gostariam de comprá-la, mas ninguém tinha dinheiro suficiente para pagar a parte dos irmãos e, pensando bem, comprá-la pra que?
 
Todos tinham casa própria melhor do que aquela e a vida estruturada em outro lugar.
 
Pensaram até em tombá-la e conservá-la para que, nos próximos séculos, os netos, bis, tri e tetranetos pudessem conhecer a Casa onde viveram sua infância os bis, tri, ou tetravôs.
 
Outra besteira!
 
Se os jovens de hoje não dão valor para antiguidades, imaginem só os do futuro!
 
O melhor, isto é, a única coisa sensata a fazer, era pô-la a venda, vibrar para que aparecesse um interessado que pagasse o que valia, repartir o dinheiro e gastá-lo, cortando assim qualquer liame sentimental com o passado representado pela Casa.
 
E assim foi feito.
 
Fim do primeiro ato!
 
* * *
 
A velha casa reformada lhes parecia um palácio...
 
Era a sua primeira casa própria e eles estavam eufóricos, cheios de planos para o futuro...
 
As crianças corriam de cá para lá explorando cada cômodo...
 
E a história se repete.
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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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