Colunistas

Publicado: Segunda-feira, 7 de abril de 2008

A Carteira

Maísa levantou-se assim que a luz acendeu dentro do cinema e viu no chão, diante da poltrona ao seu lado, uma carteira de homem.
 
Pegou, olhou para os lados para ver se alguém estava procurando por ela, mas não viu nada. Colocou-a na bolsa e sentou-se novamente disposta há esperar um pouco. Quem sabe a pessoa daria pela falta e voltaria procurar? Mas, quando as últimas pessoas deixavam a sala, ela também saiu, disposta a levá-la para casa e procurar devolve-la ao seu dono.
 
Um homem ocupara aquela poltrona. Ela percebeu que ele entrou quando o filme já tinha começado e saiu antes da luz acender, mas, nem uma só vez desviou os olhos da tela para observar o seu vizinho.
 
Agora, porém, com a sua carteira (pois só poderia ser ele o dono) na bolsa e o compromisso de encontrá-lo para devolver, ele passou a ocupar todos os seus pensamentos.
 
Mal sabia ela quanto aborrecimento a aguardava!
 
Abrindo a carteira, em casa constatou que não havia qualquer nome ou endereço que pudesse levá-la a seu dono.
 
Havia uma quantia considerável de dinheiro e um cheque. O cheque era ao portador e não estava cruzado
 
Revirando a carteira na mão, Maísa deixava aflorar seus dotes sherloquianos tentando adivinhar quem era o seu dono.
 
A carteira era de couro, tinha um acabamento requintado e uma chapinha dourada (de ouro?) onde houvera uma inscrição que se apagara com o tempo. 
 
Parecia ter sido um presente, talvez de uma namorada. Dificilmente alguém compraria para si mesmo, uma carteira assim, e mandaria gravar suas próprias iniciais.
 
O presente lhe teria sido dado há muito tempo, talvez sua obsequiadora nem existisse mais.
 
Ele, o dono devia ser um velhinho.
 
Jovens não andam com carteiras recheadas nem recebem cheques vultosos. Homens de meia idade, ativos, não andariam por ai com um cheque ao portador nem iriam ao cinema com tanto dinheiro no bolso.
 
Aquele dinheiro talvez fosse o seu salário, ou melhor, sua aposentadoria. E o cheque, talvez fosse o pagamento de alguma coisa que ele vendeu.
 
Aquilo podia ser tudo o que ele possuía. 
 
O nome do emitente do cheque, Ernesto Figueiredo da Rocha era tudo que ela tinha como referência.
 
Mas, quem seria esse Ernesto Figueiredo da Rocha?
 
Seu nome não constava da lista telefônica da cidade.
 
O Banco! Sim, o Banco devia ter o endereço de seu cliente. Maísa não podia ficar quieta. Tinha que descobrir onde ele estava e restituir o que era seu.
 
No dia seguinte, foi até à Agência localizada num bairro afastado, que ela não conhecia e onde demorou para conseguir chegar.
 
A Agência estava cheia. Longas filas levando centenas de pessoas a uns poucos caixas, mas ela estava disposta a tudo em prol do seu protegido.
 
Quase uma hora depois, quando ela chegou ao guichê, contou a história ao Caixa e apresentou um papel onde anotara o nome do emitente, numero do cheque, data, etc.
 
O Caixa disse que não estava autorizado a dar informações sobre cheques para terceiros, muito menos o endereço do cliente.
 
Deixe o cheque comigo que eu encaminho para o gerente decidir o que fazer.
- Eu não estou com o cheque aqui.
 
Imagine se ela ia dar um cheque ao portador, que qualquer pessoa podia sacar, para esse funcionário!
 
Sabia que os funcionários dos Bancos são pessoas idôneas, mas, sabe-se lá! Quantas vezes arriscam a emprego e a própria pele para dar um desfalque! Sacar um cheque ao portador não é nada arriscado. A tentação é grande! Não! Ela não ia facilitar uma coisa dessas.
 
Você pode conversar com o gerente e ver o que ele acha que você pode fazer.
- Agora?
- Agora, não. Ele só está aqui das 13 às 19 horas.
- Nesse horário eu trabalho. Não posso vir.
- Nas sextas feiras ele vem de manhã, das 8 as 13 horas.
 
Maísa não teve outra alternativa senão esperar até sexta-feira para retornar ao Banco e esperar o gerente se dispor a atendê-la.
 
Mas, não adiantou nada. A mesma conversa:
- Deixe o cheque comigo
- Eu não trouxe o cheque. Eu só queria saber se o cheque foi sustado.
- Não posso dar informações sobre cheques para terceiros
- Então me dê o endereço do Sr. Ernesto Figueiredo da Rocha.
- Não estou autorizado a fornecer o endereço dos clientes do Banco.
- Não tem jeito de deixar um recado para ele me procurar?
- Não posso fazer isso.
 
Maísa sai desanimada e encontra logo mais uma senhora que a aborda pedindo:
 - Por favor, eu ganhei um prêmio na loteria e não sei como fazer para receber...
 
Não dá nem resposta.
 
Será que ainda existe alguém no Mundo que não conheça esse golpe?
 
O pior é que exis
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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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