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Publicado: Segunda-feira, 12 de abril de 2010

A bondade ainda existe

Izildinha era uma pobre menina. Sofrera na primeira infância uma poliomelite que lhe tirara os movimentos das pernas.

A família era muito pobre. O pai, sabe-se lá por onde andava. A mãe trabalhava muito e os seus irmãos passavam os dias vagando pelas ruas.

Quando a mãe estava em casa, levava a filha ao quintal para tomar um pouco de sol, sentada em uma cadeira, mas quando saia para trabalhar a deixava sozinha deitada na cama.

Izildinha tinha uma única amiga, a Ivana, que todas as tardem ia para a sua casa levando as lições da escola para fazerem juntas. Depois brincavam com um joguinho e comiam o lanche que ela sempre trazia de sua casa.

Na medida do possível ajudava a amiguinha nas suas limitações e tinha um sonho: conseguir uma cadeira de rodas para ela.

Seria tão bom, ela poderia ir à escola e podiam dar uma volta na rua nas tardes de domingo.

Primeiro pediu aos pais, mas eles disseram que não era possível.

A família de Ivana também era pobre, mas era bem estruturada, os pais trabalhavam e davam aos filhos o melhor que podiam.

Insistiu com a mãe:

- Você podia comprar financiado, pagar só um pouco por mês.

- Não dá. Já temos muitos compromissos, não podemos assumir mais um.

Ivana teve uma ideia.

Fez uma lista e começou a pedir às pessoas uma doação para comprar a cadeira, mas ninguém quis colaborar. Uns achavam que ela não ia conseguir levantar o dinheiro suficiente, outros pensavam até que ela podia estar mal intencionada. Afinal ela era uma criança!

Até que um dia, quando percorria uma feira livre fazendo seu pedido às donas de casa que faziam compras, um guarda a deteve e levou-a à delegacia.

O delegado queria acabar com a mendicância infantil e deu ordem para que todos os pequenos mendigos encontrados fossem encaminhados a ele para estudar uma solução.

Ivana contou a historia de sua amiguinha deficiente e ele acabou acreditando na sua boa intenção. Ela era uma menina bem cuidada, educada, via-se que não estava abandonada, só que estava fazendo algo que era proibido, como ele explicou a ela e dispensou-a

Chegou o Natal.

Uma grande loja de brinquedos fez uma promoção.

Convidou as crianças para mandarem por seu intermédio uma cartinha ao Papai Noel pedindo um presente.

A loja disponibilizava as cartinhas para seus fregueses que quisessem colaborar e se comprometia a mandar um Papai Noel devidamente caracterizado, entregar os presentes na noite de Natal.

Ivana escreveu pedindo uma bicicleta e sugeriu a Izildinha que pedisse a cadeira de rodas.

- São presentes muito caros, questionou a mãe. Vocês não vão ganhar.

- Quem sabe?

A mãe tinha razão. Ivana ganhou uma boneca e Izildinha um ursinho de pelúcia.

Ivana não desistiu.

A escola onde ela estudava ganhou um novo prédio.

No dia da inauguração houve uma festa e o Governador do Estado veio participar.

As crianças todas uniformizadas e perfiladas estavam muito bem comportadas como havia pedido a professora, pois o Doutor era uma autoridade importante.

Mas, quando ele, acompanhado por sua comitiva, passou por Ivana, para espanto de todos, ela o abordou:

- Posso falar com o Senhor?

A professora puxou-a pelo braço, os seguranças do Governador aproximaram-se, mas ele sorriu e disse:

- Deixem a menina falar. O que você quer me dizer?

- Eu tenho uma amiguinha que não pode andar... Eu queria pedir-lhe uma cadeira de rodas para ela.

- Muito bem! Vou providenciar. Acariciou-lhe os cabelos e afastou-se.

Quando Ivana contou aos pais o que tinha feito ele ficaram boquiabertos. Não imaginavam que ela teria coragem para tanto.

O pai, entretanto, falou:

- Não acredito que ele dê a cadeira. Se fosse na época da campanha até podia ser, mas, agora que já está eleito mesmo... (olhem o preconceito...)

Ivana esperou que o pai estivesse enganado. Ela ia ganhar a cadeira, sim!

Mas, o tempo passou provando que ele tinha razão. O governador esqueceu-a.

Ivana começou a desanimar. Não ia mesmo conseguir.

Algum tempo depois, porém, teve uma surpresa agradável. Num sorteio realizado em uma loja ela ganhou uma bicicleta.

Uma bicicleta era, já há muito tempo, o seu sonho. Seus pais sempre prometiam que a dariam quando pudessem, mas nunca podiam.

Ivana, porém teve uma ideia.

Foi à loja e pediu ao gerente que trocasse seu presente por uma cadeira de rodas.

Mais uma vez falou da deficiência da amiguinha e disse que queria muito dar-lhe a cadeira, mas não podia comprar e não conseguira quem a doasse.

O homem, porém, disse que não era possível... que já estava contabilizado... que a loja não trabalhava com cadeiras de rodas...

Mas, um senhor que estava ao lado e ouvira todo o diálogo interveio:

- Eu tenho um amigo que tem uma loja onde vendem cadeiras de rodas. Deixe a bicicleta comigo que eu consigo que ele faça a troca.

Mais uma vez Ivana chega radiante em casa e os pais a desiludem:

- Como você é ingênua! Deixou a bicicleta que você tanto queria com uma pessoa que nem conhece. Pode acreditar que a perdeu.

Ivana passou uma grande parte daquela noite chorando. Perdera talvez a ultima chance de ter uma bicicleta e a Izildinha ia passar o resto de sua vida deitada naquela cama.

Por que será que era tão difícil ajudar uma amiga?

No dia seguinte, porém, um carro parou a frente de sua casa para fazer uma entrega.

Uma sofisticada cadeira de rodas.... E a sua bicicleta.

Havia ainda uma cartinha onde a pessoa disse que ficou encantado com o seu desprendimento e quis presenteá-la com a cadeira.

Desejava felicidade às duas amiguinhas e terminava com uma brincadeira:

"Se cair da bicicleta e ralar o joelho, não me culpe por isso, tá!"

Assinatura ilegível
 

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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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