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Publicado: Sexta-feira, 26 de março de 2010

A arte do desencontro II

A arte do desencontro II

Recém casado há poucos meses, Jair ainda ostentava aquele sorrisinho permanente, e por isso mesmo meio patético, característico das pessoas muito felizes. Nunca imaginou que um casamento pudesse ser tão recompensador. Por que diabos as pessoas teimam em esculhambar o casamento? Foi assim até que por conta de uma viagem relâmpago, Cidinha - sua esposa - deixou Jair solteiro pela primeira vez depois do casório. Viajem de negócios. Casal moderno.

Por três noites Jair sentiu-se completamente perdido, até seu sorrisinho de recém casado desapareceu. Incrível como havia se apegado a Cidinha com tamanha intensidade.

Decidido a não curtir fossa, Jair fez o que todo e qualquer homem razoável faria numa situação dessas: beber com os amigos. Foi ao Baronesa, o bar de um velho amigo, desses que não se encontram em qualquer esquina, amigo dos tempos do ginásio.

Muita conversa fiada, futebol, a inesquecível Roberta do colegial, piadas repetidas, as festas da época de república e tudo aquilo que os homens conversam quando se reencontram e já estão meio bêbados. Papo vem, papo vai, já às tantas da madrugada, o amigo de Jair pede um champanhe ao bar-man e ergue um brinde:

- Jair, com todo respeito, um brinde à Cidinha...e com Veuve Cliquot, a preferida dela!

Jair ergueu seu copo e lá ficou paralisado, copo com copo, ele e o amigo congelados, olho no olho. Jair entre surpreso e desconfiado, sempre com o copo erguido indagou:

- Que estória é essa? Como o champanhe preferido da Cidinha?

- Ah...sei lá Jair, não amola. Que mulher que não gosta de champanhe?!

- É, mas você não falou qualquer champanhe, você falou Veuve Cliquot, "a preferida dela".

- Tá me estranhando Jair? Que estória é essa? Tá com ciúmes da Cidinha comigo? Casou e já tá ficando neuras?

Jair ainda com o cenho franzido refletiu um pouco. Tentou se convencer de que não havia razão para desconfianças. Afinal estava duvidando da mulher que amava e que o chamava de Pitoco e da palavra de seu melhor amigo. Mas tinha algo ali que ele definitivamente não gostava. Adotou então um tom mais light e perguntou com ares especulativos:

- Mas nem eu sabia que ela gostava de Veuve Cliquot, você sabe mais dela do que eu... E champanhe é bebida de motel!

O amigo não perdia o ar amistoso e tranquilo.

- Pô Jair, você é o meu maior amigo cara! Não tem nem cabimento você pensar um troço desses!

Jair, imune ao apelo fraternal de seu velho amigo, foi perdendo as estribeiras. O clássico orgulho de marido enganado:

- Era! Era o seu maior amigo! Porra, não tem cabimento você saber qual é a bebida preferida da minha mulher e eu nunca ter tomado essa joça com ela! Por que se é a preferida dela, ela só toma em ocasiões especiais, quer dizer que nunca tivemos uma ocasião especial...

Quando parecia que não haveria mais meios de convencer o desolado Jair de que seu amigo nunca o enganara com sua mulher, toca o Bip do marido traído: “Pituco, estou morrendo de saudades. Itaparica é metade sem você. Deixei uma mensagem prá você na nossa secretária eletrônica, tava louca prá ouvir a tua voz. Te amo. Cidinha”.

Difícil foi perceber quem ficou mais feliz com a mensagem, se Jair ou se o seu amigo. Romântico incorrigível, Jair desandou a chorar.

- Pô... que cena ridícula! Desculpa cara, eu tô até com vergonha.

Com a desenvoltura de velhos amigos e já bêbados os dois se abraçaram. Depois vieram muitos outros drinques, tantos outros brindes, tantas recordações que até hoje não se sabe como Jair chegou até à sua casa, bêbado como havia deixado o bar.

Já em casa, meio trôpego, passou pela geladeira e apanhou uma jarra de água, sabia que teria sede pela manhã, dessas sedes que dispensam copos.

Largou-se na cama de casal. Como sobrava espaço! Pegou o bip e releu a mensagem. Com obstinação de gente apaixonada arranjou forças para levantar-se da cama e foi até a sala, afundou-se na poltrona e acionou a secretária eletrônica, queria ouvir a voz de Cidinha.

“Picorrucho querido, tô morrendo de saudades, queria ouvir a tua voz, já foi prá gandaia seu safado?...” Jair esboçou um sorriso orgulhoso de canto de boca, a mensagem continuava: “Amanhã eu tô de volta, quero matar as saudades. Vou te morder inteirinho... te prepara, põe aquela samba canção de seda que eu adoro. Tô sedenta! Por falar em sede, põe uma Veuve Cliquot na geladeira por que amanhã é dia de orgia! Dia e noite de orgia.Te amo.”

Jair perdeu o sono e o amigo.

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O olhar de um nariz

Nando Bolognesi

Nando Bolognesi

Palhaço profissional e na vida. Fez parte do elenco dos Doutores da Alegria de 2001 a 2005. Trabalhou de 2005 a 2008, sempre como palhaço, com usuários de atendimento psiquiátrico. Faz parte do elenco do espetáculo de palhaços Jogando no Quintal.

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