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Publicado: Terça-feira, 29 de maio de 2018

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Crédito: Arquivo Pessoal 40
Obrigado, Jesus... Amém!

Ao nascer fui uma incógnita. O sétimo filho após seis irmãos e irmãs falecidos apenas alguns meses após o nascimento. Impaciente, nasci prematuro. Aos sete meses. Era o final da década de 1970. A medicina não se parecia nada com a de hoje. Como diziam na época: “vinguei”.

Aos 5 anos tive o auge de uma primeira infância muito lúdica e despreocupada. Nunca me faltaram pessoas ao redor e tampouco a imaginação. Já lia e escrevia, resultado de crescer cercado por livros, atlas, enciclopédias e dicionários. Um luxo que meu pai operário e minha mãe artista (doceira, boleira, artesã) sempre sustentaram.

Aos 10 anos percebi algumas realidades, bem como as primeiras frustrações. Conheci as diferenças sociais, os conflitos familiares, a violência e as injustiças como um todo. Entendi a necessidade pela sobrevivência, a importância do estudo e do trabalho. Foi nessa época o meu primeiro emprego: vender salgadinhos na rua de manhã, para ir à escola pública de tarde. Saudades do Regentão!

Aos 15 anos já não me sentia mais criança, pois todo adolescente pensa que é adulto. Tive as primeiras paqueras e namoricos tão inocentes, daqueles que penso não existirem mais hoje. As primeiras hipóteses sobre o que fazer da vida começaram a ferver na minha cabeça, buscando pela importante resposta sobre o que eu queria ser quando crescesse. Sonhos, muitos sonhos. Descobri Deus de verdade. Saudade do JACA da Candelária!

Aos 20 anos eu era só vontade, mas sem direção. Perdido no mundo feito barco sem rumo. Trabalhava, estudava, tinha vida social. Experimentava alegrias e tristezas, sem grandes dramas. Qualquer desilusão amorosa durava só três meses, era uma maravilha. Não era rico, não tinha casa e nem carro, mas tinha amizades. Foi a época em que as bases da fé católica começaram a se firmar de verdade na minha alma. Foi o que me manteve no rumo certo.

Aos 25 anos perdi meu pai e a consciência da minha própria mortalidade falou muito alto. Fiquei confuso, entrei em crise, tive depressão. Já atuava na Imprensa fazendo os primeiros trabalhos e tive a sorte de sempre contar com pessoas maravilhosas ao meu lado para me apoiar. Estava noivo e sonhava formar uma família, para ser um bom pai como o que eu tivera.

Aos 30 anos quase tudo estava mudado. Solteirão convicto, preocupava-me em desfrutar a vida de um modo que a simplicidade da infância e a dureza da adolescência não me haviam permitido. Muitas festas e exageros. Muitas novas amizades, algumas nem tão boas ou sinceras. Eu era independente e tinha toda a minha liberdade, mas no fundo da alma sentia-me como um filho pródigo. Depois das diversões e distrações do mundo, afogava-me em lágrimas solitárias sem ninguém saber.

Aos 35 anos senti, literalmente, a crise da meia idade. Percebi que eu poderia não ter outros 35 anos pela frente. De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) a média de vida dos brasileiros nascidos em 1978 é de quase 63 anos, portanto... Enxerguei-me numa encruzilhada e dei o braço a torcer para uma idéia que desde sempre me atormentava: eu havia nascido para algo maior e melhor, para além do comer e beber, do ganhar e gastar, do rir e chorar, do dormir e acordar, etc.

Depois de ter experimentado de quase tudo na vida, escolhi o que era para mim fundamental: minha relação com Deus através da fé. Foi quando decidi abandonar tudo para ingressar no Seminário, na pretensão de tornar-me um sacerdote católico, servo de Cristo nesta terra.

Hoje chego aos 40 anos e não tenho certeza se do “enta” sairei. Porém, isso já não me preocupa. Consegui da vida muitíssimo mais do que planejei ou poderia sonhar. Tenho paz de espírito e uma boa saúde. Tenho amizades realmente verdadeiras. Tenho alguns dons, presenteados por Deus para compensar as minhas imbecilidades.

Alcancei a maturidade livrando-me da maioria das inseguranças comuns. Alcancei o reconhecimento social e profissional, bem como as glórias acadêmicas. Tive riqueza e pobreza, ganhos e perdas. Tive ilusões, amores, medos e lidei com todos eles. Alcancei a paz, até onde é possível neste mundo. Fiz de Deus, do seu povo e da sua Igreja, os grandes amores da minha vida, algo bem maior que todos os meus erros e pecados somados. E olha que não foram poucos...

Ao longo de quatro décadas conquistei um estado interior que infelizmente muitos não enxergam quando confrontam a própria alma no espelho: sou sinceramente feliz, realizado e satisfeito com tudo quanto Deus me presenteou. Tal sensação não se compra, não se aprende na universidade, tampouco através de um conjuntinho de idéias.

Sou imensamente grato a tudo e a todos, pois todas as vitórias e derrotas pessoais trouxeram-me até aqui para resultar no que sou hoje, embora não me considere muito e saiba que há mais ainda para trabalhar em mim mesmo. Somos uma constante processo, quase uma metamorfose ambulante.

Dizem que “a vida começa aos quarenta”. É mentira. Seria injusto se assim fosse. A vida começa desde que nascemos e deve ser bem vivida até o seu fim natural. Prefiro ficar com a frase do filósofo alemão Arthur Schopenhauer: “Os primeiros quarenta anos dão-nos o texto, os trinta anos seguintes dão-nos o comentário”.

Enquanto houver tinta na minha pena, enquanto houver vida neste meu corpo, continuarei vivendo, escrevendo e comentando com base nas verdades do Evangelho. E que venham outras quatro décadas, se Deus quiser.

Obrigado, Jesus.

Amém.

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Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é diácono transitório na Diocese de Jundiaí (SP) e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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