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Publicado: Sexta-feira, 17 de junho de 2016

* "O voo já nasce dentro das aves"

Crédito: Romilton Carvalho * "O voo já nasce dentro das aves"

ELES SÃO MUTILADOS ANTES da venda. No novo lar são espancados, ficam sob sol e chuva, no frio ou em locais sem ventilação ou luz solar. Muitas vezes passam fome ou recebem alimentos inadequados às suas necessidades.

O desejo humano de posse alimenta o tráfico de animais. Quando recolhidos pela fiscalização, aves, mamíferos e outros se encontram em péssimas condições: dopados, famintos, com sede e frio. Muitos são filhotes que mal enxergam, sem pêlos ou penas.

Corujas, Lóris lentos e saguis são destinados aos milhares para o comércio de animais exóticos. As aves têm os olhos furados para não enxergarem a luz do sol e cantarem, chamando a atenção da fiscalização. Todos são anestesiados para que pareçam dóceis e mansos.

Os vídeos compartilhados nas redes sociais são grandemente responsáveis por isso. Lóris lentos recebem cócegas, levantam os braços e parecem adorar o contato. Corujas fofas mexem a cabeça ao serem afagadas, ou se alimentam de algo oferecido às colheradas, e saguis sentam nos ombros dos seus donos e fazem gracinhas. Tudo ao som de música delicada, que ajuda a embotar os sentidos e o bom senso de quem assiste e compartilha.

Poucos reparam nos detalhes – as correntes ou cordões que prendem seus pés, e as pequenas gaiolas deixadas de lado.

Estudiosos da espécie afirmam que as cócegas são uma tortura para os Lóris lentos. Aterrorizados, os animais levantam os braços para acessar uma glândula venenosa que fica dentro do seu cotovelo e se defenderem.

Encontrado apenas na Ásia, o Lóris lento é o único primata venenoso do mundo, capaz de matar um homem adulto com uma mordida.

Para evitar o envenenamento, os traficantes removem seus dentes em condições de higiene precárias e sem anestesia. Guincham de dor e as infecções geralmente os levam à morte. Todas as espécies de Lóris estão ameaçadas de extinção.

As corujas possuem hábitos notívagos. São aves de rapina e se alimentam de pequenos mamíferos, principalmente roedores e morcegos, insetos e aranhas.

Engolem suas refeições inteiras e depois vomitam pelotas com pêlos e fragmentos de ossos. A maioria das espécies fica em árvores, mas algumas fazem o ninho em áreas de relva baixa, junto às árvores.

Mesmo as de porte pequeno não podem ser mantidas sem sofrimento em gaiolas. Antes de pousar, uma coruja precisa bater as asas pelo menos cinco vezes, por causa da sua estrutura.

Os pequenos saguis são arbóreos e se alimentam de insetos, frutas e carboidratos produzidos por um grande número de plantas. Também podem comer pequenos vertebrados como lagartos, filhotes de pássaros e ratos, além de viverem em bando.

Cobras, Iguanas, leões, ursos ou qualquer outro animal não domesticável como cavalos, cães e gatos, têm hábitos e necessidades específicas, jamais supridas por quaisquer arranjos humanos como gaiolas, poleiros, jaulas, recintos, circos ou zoológicos.

Egressos do tráfico ou dos “lares” onde viviam, chegam às ONGs e santuários que os recolhem com deformidades ósseas e traumas psicológicos resultantes de maus-tratos, membros amputados e feridas. A maioria não pode mais andar, voar ou se alimentar para retornar à natureza.

A liberdade já nasce dentro de cada filho da natureza. Para os animais, é indiferente se o cativeiro é fruto do tráfico ou da criação autorizada pelo IBAMA – injustificável sob quaisquer aspectos.

Manter animais em cativeiro continua sendo um hábito cultural da população brasileira. Condená-los à escravidão é incompatível com qualquer espécie de amor, em qualquer parte do planeta.

*Rubem Alves

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História & Cotidiano

Katia Auvray

Katia Auvray

Historiadora e escritora. Autora dos livros "Cidade dos Esquecidos - A vida dos hansenianos num antigo leprosário do Brasil" e da coleção infanto-juvenil "Magia da História", sobre a história da cidade de Salto/SP. Também é Mestre Reiki.

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